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sábado, 6 de agosto de 2011

O Governo Floriano Peixoto



Floriano Vieira Peixoto (Maceió, 30/04/1839 — Barra Mansa, 29/06/1895) foi primeiro vice-presidente e segundo presidente do Brasil. Presidiu o Brasil de 23 de novembro de 1891 a 15 de novembro de 1894, no período da República Velha. Foi denominado "Marechal de Ferro" e "Consolidador da República". Contra as rebeliões armadas, Floriano agiu energicamente, graças ao apoio do Exército e do PRP (Parti­do Republicano Paulista), o que lhe valeu a al­cunha de Marechal de Ferro. .

Nascido em Ipioca, distrito da cidade de Maceió (Alagoas) numa família pobre de recursos, mas ilustre e ativa na política: seu avô materno, Inácio Accioli de Vasconcellos, foi revolucionário em 1817. Foi criado pelo padrinho e tio, coronel José Vieira de Araújo Peixoto. Floriano Vieira Peixoto foi matriculado numa escola primária em Maceió (Alagoas) e aos dezesseis anos foi para o Rio de Janeiro, matriculado no Colégio São Pedro de Alcântara.

Assentado praça em 1857, ingressou na Escola Militar em 1861. Em 1863 recebeu a patente de primeiro-tenente, seguindo sua carreira militar. Floriano era formado em Ciências Físicas e Matemáticas.

Floriano ocupava posições inferiores no exército até a Guerra do Paraguai, quando chegou ao posto de tenente-coronel. Ingressou na política como presidente da província de Mato Grosso, passando alguns anos como ajudante-geral do exército.

No dia da proclamação da república, encarregado da segurança do ministério do Visconde de Ouro Preto, Floriano se recusou a atacar os revoltosos e aderindo ao movimento republicano, deu voz de prisão ao chefe de governo Visconde de Ouro Preto.

Após a proclamação da república, assumiu a vice-presidência de Deodoro da Fonseca durante o Governo Provisório, sendo depois eleito vice presidente constitucional e assumiu a presidência da república em 23 de novembro de 1891, com a renúncia do marechal Deodoro.

Seu governo teve grande oposição de setores conservadores, como a publicação do Manifesto dos 13 generais. O apelido ou alcunha, de "marechal de ferro" era devido à sua atuação enérgica e ditatorial, pois agiu com determinação ao debelar as sucessivas rebeliões que marcaram os primeiros anos da república do Brasil. Recebeu também o título de Consolidador da República.

A Revolta da Armada no Rio de Janeiro, chefiada pelo almirante Saldanha da Gama, e a Revolução Federalista no Rio Grande do Sul, ambas com apoio estrangeiro se destacaram. A vitória de Floriano sobre essa segunda revolta gerou a ainda controversa mudança de nome da cidade de Nossa Senhora de Desterro, para Florianópolis ("Cidade Floriana") em Santa Catarina.

Em seu governo determinou a reabertura do congresso e o controle sobre o preço dos gêneros alimentícios de 1ª necessidade e os aluguéis.

Apesar da constituição versar no art. 4 novas eleições quando o presidente renunciasse antes de dois anos, Floriano permaneceu em seu cargo, alegando que a própria constituição abria uma exceção, ao determinar que a exigência só se aplicava a presidentes eleitos diretamente pelo povo.

Entre o final de 1891 e 15 de novembro de 1894, o governo de Floriano Peixoto foi inconstitucional, pois estava a presidência da República sendo exercida pelo vice-presidente sem que tivessem acontecido novas eleições presidenciais, como exigia a constituição.

Floriano Peixoto entregou o poder em 15 de novembro de 1894 a Prudente de Morais, falecendo um ano depois, em sua fazenda. Deixou um testamento político, no qual diz que "Consolidador da República" foram, na verdade, as diversas forças que fizeram a república.

Consta que Floriano Peixoto lançou uma ditadura de salvação nacional. Seu governo era de orientação nacionalista e centralizadora. Demitiu todos os governadores que apoiaram Deodoro da Fonseca. Na chamada Segunda Revolta da Armada agiu de forma contundente vencendo-a de maneira implacável, ao contrário de Deodoro.

A Segunda Revolta da Armada aconteceu em 1893. Esta também foi chefiada pelo almirante Custódio de Melo, depois substituído pelo almirante Saldanha da Gama. Floriano não cedeu às ameaças; assim, o almirante ordena o bombardeio da capital brasileira. O movimento desencadeado pela marinha de guerra no Rio de Janeiro terminou em 1894, com a fuga dos revoltosos para Buenos Aires.

O Marechal de Ferro, em seus três anos de governo como presidente, enfrentou a Revolução Federalista no Rio Grande do Sul, iniciada em fevereiro de 1893. Ao enfrentá-la, apoiou Júlio Prates de Castilhos.

Euclides da Cunha assim escreveu sobre Floriano :

No meio em que surgiu, o marechal Floriano Peixoto sobressaía pelo contraste. Era um impassível, um desconfiado e um cético, entre entusiastas ardentes e efêmeros, no inconsistente de uma época volvida a todos os ideais, e na credulidade quase infantil com que consideramos os homens e as coisas. Este antagonismo deu-lhe o destaque de uma glória excepcionalíssima. Mais tarde o historiador não poderá explicá-la.
O herói, que foi um enigma para os seus contemporâneos pela circunstância claríssima de ser um excêntrico entre eles, será para a posteridade um problema insolúvel pela inópia completa de atos que justifiquem tão elevado renome. É um dos raros casos de grande homem que não subiu, pelo condensar no âmbito estreito da vida pessoal as energias dispersas de um povo. Na nossa translação acelerada para o novo regime ele não foi uma resultante de forças, foi uma componente nova e inesperada que torceu por algum tempo os nossos destinos.
Assim considerado, é expressivo. Traduz de modo admirável, ao invés da sua robustez, a nossa fraqueza.
O seu valor absoluto e individual reflete na história a anomalia algébrica das quantidades negativas: cresceu, prodigiosamente, à medida que prodigiosamente diminuiu a energia nacional. Subiu, sem se elevar - porque se lhe operara em torno uma depressão profunda. Destacou-se à frente de um país, sem avançar - porque era o Brasil quem recuava, abandonando o traçado superior das suas tradições...
Diante da sua figura insolúvel e dúbia, os revolucionários apreensivos traçavam na tarde de 14 de novembro o ponto de interrogação das dúvidas mais cruéis, e ao meio-dia de 15 de novembro os pontos de admiração dos máximos entusiasmos. Não se conhece transformação, ao mesmo passo, tão repentina e tão explicável.
Sobretudo explicável. O seu prestígio nascera paradoxalmente antes da revolução. Sabia-se, ou conjecturava-se, que sobre o regime condenado velava, imperceptível, aquela astúcia silenciosa, formidável e cauta, contaminando talvez dentro do próprio exército o traço subterrâneo da revolta; ou acompanhando-o talvez, linha por linha, ponto por ponto, num paralelismo assombroso, e no prodígio de conspirar contra a conspiração, ajustando soturnamente o rigorismo da lei ao lado clã rebeldia incauta, de modo que, ao estalar, tivesse de improviso, em cima, irrompendo da sombra, a mão possante que a jugularia.
Esta dúvida, ou dolorosíssima suspeita - sabem-no todos os revolucionários, embora muitos a negassem depois - era a mais inibitória incerteza entre tantas outras que nos manietavam.
Revela-o um incidente inapreciável como muitos outros, porque o 15 de novembro foi uma glorificação exagerada de minúcias:
Na véspera daquele dia, às 10 horas da noite, toda a segunda brigada, em plena revolta, estava em forma e pronta para a marcha. Mas antes de a realizar sucedeu o fato ilógico e inverossímil de seguir um capitão mandado pelos chefes revolucionários, a participar o acontecimento ao próprio ajudante general de exército, ao marechal Floriano. Por um impulso idêntico ao do criminoso que segue, num automatismo doentio, a confessar o crime ao juiz que o apavora, a conspiração denunciava-se. Atirava aquela cartada arriscadíssima; iludia o temor do adversário procurando-o; trocava a expectativa do perigo pelo perigo franco.
Mas nada conseguiu. Diante do oficial rebelde que viera de S. Cristóvão a procurá-lo, encontrando-o na única sala que se destacava iluminada no vasto quartel do campo de Santana imerso na mais profunda treva - o marechal Floriano apareceu ainda mais indecifrável. Determinou com a palavra indiferente de quem dá a mais desvaliosa ordem a uma ordenança, que se desarmasse a brigada sediciosa. Mas não fez a recriminação mais breve, ou traiu o mais fugitivo espanto; e não prendeu o parlamentário indisciplinado que ao sair adivinhou adensados no escuro, dentro, no vasto pátio interno, todos os batalhões de infantaria, com as espingardas em descanso, e de baionetas caladas onde se joeirava salteadamente, em súbitos reflexos, o brilho das estrelas...
A consulta à esfinge complicara o enigma. Como interpretar-se aquela ordem apenas balbuciada pela primeira autoridade militar rodeada da parte mais numerosa da guarnição que os regimentos levantados iriam encontrar vigilante e firme nas formaturas rigorosas?...
A revolta desencadeou-se nesta indecisão angustiosa, e foi quase um arremesso fatalista para a derrota.
Porque a vitória foi uma surpresa; e desfechara-a precisamente o homem singular que equilibrara até o último minuto a energia governamental e a onda revolucionária - até transmudar a própria infidelidade no fiel único da situação, de súbito inclinado para a última.
Este golpe teatral, deu-o com a impassibilidade costumeira; mas foi empolgante. Minutos depois, quando diante do ministério vencido o marechal Deodoro alteava a palavra imperativa da revolução, não era sobre ele que convergiam os olhares, nem sobre Benjamin Constant, nem sobre os vencidos - mas sobre alguém que a um lado deselegantemente revestido de uma sobrecasaca militar folgada, cingida de um talim frouxo de onde pendia tristemente urna espada, olhava para tudo aquilo com uma serenidade imperturbável. E quando, algum tempo depois, os triunfadores, ansiando pelo aplauso de uma platéia que não assistira ao drama, saíram pelas ruas principais do Rio - quem quer que se retardasse no quartel-general veria sair de um dos repartimentos, no ângulo esquerdo do velho casarão, o mesmo homem, vestido à paisana, passo tranqüilo e tardo, apertando entre o médio e índex um charuto consumido a meio, e seguindo isolado para outros rumos, impassível, indiferente, esquivo...
E foi assim - esquivo, indiferente e impassível - que ele penetrou na História.

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